domingo, 7 de novembro de 2010

O mesmo sonho de outras noites ou foram várias vezes ontem? A areia é uma rampa até o mar. Vem a onda e arrasta para a água todos que estão ali. Poucos conseguem se segurar em algo e se salvar. Seguros (e tristes) estão aqueles que resolvem ficar entre a calçada e a areia, observando o mar lá de cima. Sempre esqueço os perigos e me arrisco a dar um mergulho. Tento então voltar - me desespero - e acordo.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Não há espaço para o mundo aéreo das coisas que não acontecem (conhecida distração). O concreto grita em meu ouvido e me sacode. E desde então, atenção.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Um copo de água, por favor (mas não há sede). Pele ressecada, mal estar difuso. Mas não há sede. Algo está interditado – e o corpo adoece. Muda o ritmo e o foco. O corpo doente implora por cuidado. Do adoecimento ao olhar atento.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Mais um dia sem intervalos. Sempre igual: as horas arrastam o corpo entre atividades e o corpo carrega o cansaço que produz.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Lá está a tartaruga na grama. Parece serena, além da lentidão habitual. É bonito viver assim devagar... Ela percebe que hoje é sábado? Em uma foto guardo sua sabedoria.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quatro anos se passaram. Quero ficar aqui, mas a sensação é de despedida. Já sou o que me rodeia: ruas, rótulas, CFH. Mundo miúdo, aconchegante.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A chuva é boa para as plantas. Somos o que comemos, e muita água. Meu pai disse que, sendo assim, sou planta também. Mas o céu tão cinza encolhe o dia, parece ser noite. As gotinhas batem na janela e deslizam como se fossem lágrimas. A chuva é boa pra mim?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entre o pode ser e o podia ter sido, pode também ficar ali – no meio. Mas a angústia das possibilidades travadas aparece ali também – no meio. Dali não vê os diversos acontecimentos simultâneos que continuam acontecendo. E também não participa deles. A mulher estende a roupa no varal, e faria isso ainda que eu não tivesse visto. Pessoas diferentes. É o sotaque ou muito mais? Até que ponto somos o lugar em que estamos?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Tenho uma foto de lá, registro de um contato passageiro. Contato muito frágil, pé e terra separados pelas rodas do ônibus. Sábado piso de verdade na pontinha do mapa, lá embaixo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Vida pequena, de espaços estreitos. Pouco, muito pouco. Olha ali, o movimento da cidade. Dizem que tudo continua como antes.

domingo, 22 de agosto de 2010

O espelho reflete, ou melhor, repete a pessoa em si. A pessoa repetida no espelho é a mesma? Hoje vi a pessoa repetida e foi diferente. Todo dia a mesma pessoa escova os dentes em frente o espelho, gesto tão habitual. Mas foi diferente. Observo a imagem na qual estou resumida. A conclusão óbvia – “sou eu” – de repente é nova e questionável.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Mais um mês e trinta outros dias tão parecidos com os últimos. Dias que – de noite – tentam avisar que não foram contemplados, evidenciam o quão incompletos estão. E o dia vai embora no escuro, insatisfeito. Outro dia nasce amanhã. E nasce miúdo, sabe como vai se sentir ao anoitecer.

sábado, 15 de maio de 2010

Inevitavelmente dorme. Mas já não sabe a posição de dormir. Algo acontece com o braço que não encontra mais seu lugar. E acorda dormente na madrugada. Antigo amigo, o braço. Dormente, é o único que realmente dorme.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Esboços de tentativas de movimento. Se escrevo de lápis posso apagar. Sempre apago. O papel cada vez mais branco denuncia as marcas da borracha.

sábado, 17 de abril de 2010

A música toca no fone e é difícil estar ali, na música. Na rua tudo acontece e também não vejo. Afogada em pensamentos, não ouço o que a letra da canção pode trazer. E a calçada, com suas pessoas e acontecimentos, continua injustamente negligenciada. Continuo entre caminhadas musicadas, pano de fundo para idéias inúteis.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

De longe, parece macio. Tão azul. Mas não conforta o fim de tarde preguiçoso, o sofá desconfortável. Insisto procurando aconchego de um lado ou do outro, sei que não vai acontecer. Durmo mais cedo até ou saio de casa, mudo a rotina. Sinto que ele não está ali a toa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Dorme pouco e acorda cedo, porque quer acordar cedo. Talvez porque queira degustar e mastigar cada momento do dia, cada minuto? Talvez. Mas tantas vezes acaba apenas engolindo as horas sem sentir o sabor. E os minutos e as horas, ressentidos por tanto descaso, passam rápido para deixar saudades ao cair da noite.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

horário de verão

Dias de lagoa, mar e sorvete de maracujá. De chuva também. Dias longos por pouco tempo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A parede da sala era mais bonita azul porque ressaltava as cores do quadro. Hoje, pintada de creme, ainda permite que ele brilhe sozinho. Continua bonito, mas eu olho e lembro do azul. E em todas as outras paredes lembro de tantas outras coisas. Entre memórias, não sei bem o sentimento que surge - e surge sempre diferente. Como vida vivida e revivida, renovada a cada contato.